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Posts Tagged ‘Gênero e Saúde’

Neste Didáticos-para-Recriar-se 39 (DPR39), propomos a solução de um enigma que requer bons olhos e ouvidos dos participantes. É que por detrás de um problema clássico de lógica  do livro ‘O Enigma de Einstein‘, de Jeromy Stamgrom, escondem-se estereótipos de gênero tradicionais e conservadores que reproduzem a violência simbólica contra a mulher. Seguindo a nossa classificação do DPR, a seguir falaremos sobre ‘o que é’, ‘como adotar’, ‘preste atenção’, ‘qual o descaminho’ e ‘ o que já se disse’ desta técnica.

O que é ?

O velho tabu acerca da mulher que precisa ‘agradar seu príncipe‘, ou a própria estória da ‘Bela Adormecida’ à espera de um salvador do sono eterno, pode ser ricamente discutido por meio dessa técnica simples, seja em sala de aula ou demais espaços de reflexão crítica. Trata-se de um enigma de lógica como qualquer outro, ambientado numa versão moderna do conto ‘A Bela Adormecida’, em que se exercita o poder dos olhos e ouvidos para captar o que se esconde por detrás de formalizações lógica vazia de conteúdo.

Como adotar ?

O problema de lógica deve ser colocado em primeiro plano como qualquer outro, com certo esforço da/do docente em priorizar, num primeiro momento, a resolução do mesmo. Em geral, a turma se vê seduzida pela curiosidade do problema e passa a resolvê-lo sem mais delongas. O facilitador deixa a turma se envolver na resolução do problema. Quando finalmente chegam ou não a uma solução, recomenda-se que se dê um passo atrás para discutir o que se esconde por detrás de um trivial problema ou exercício em sala de aula, em geral proposto por outro, que não elas/es próprios. Quantos desses não resolvemos em sala de aula sem nos darmos conta dos estereótipos que eles reproduzem e naturalizam-se em nossas consciências ? Essas e outras questões questões de gênero podem ser amplamente discutidas após a turma se dar conta que o verdadeiro ‘problema’ é o que a linguagem lógico-matemática esconde, ou seja, o seu conteúdo esvaziado de crítica. Confira a técnica, aqui

Preste Atenção

Para a técnica funcionar, recomenda-se que a/o docente assuma inicialmente o protagonismo da proposição, voltando a atenção da turma para o problema e não para o contexto em que ela se insere. Em todo caso, se a turma já tiver um percurso nas discussões de gênero e perceber antecipadamente a ‘Bela Adomecida’, pode-se discutir o velamento dos estereótipos sem a resolução do problema de lógica (que aqui será sempre secundário ou desnecessário). Na nossa experiência com estudantes de graduação da área da saúde, acostumados a linguagem técnica-científica destituída de subjetividades críticas, a tendência é que todas/os adiram à resolução do problema rapidamente. No segundo momento, quando voltamos ao que a técnica esconde, ou seja, os estereótipos de gênero da adaptação do conto, as discussões se mostram permeadas de grande surpresa e perplexidade a ser explorada.

Qual o descaminho ?

A desconstrução do discurso ‘técnico-científico’, amparado na neutralidade axiológica da ciência ainda preponderante na formação em saúde, é o grande descaminho crítico a ser provocado pela técnica.

O que já se disse ?

As/os estudantes se descobrem envoltos em discursos  que subliminarmente naturalizam a opressão sobre as mulheres, essa é a riqueza da técnica. As avaliações em sala de aula demonstraram que ela pode aguçar melhor ‘os olhos e os ouvidos‘ para os problemas mais significativos que se escondem por detrás das formalizações lógicas.

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