Com quantas mulheres se faz um jogo ? (a artífice)

Por Ethel de Paula

O Vidas Violetas foi feito a muitas mãos, todas elas femininas, à exceção de dois homens, benditos entre as mulheres. São participantes que merecem ser perfiladas e aqui contam um pouco sobre suas próprias histórias de vida, deixando entrever cenas de bastidores vividas no processo de construção coletiva do jogo. A elas, que, assim como as personagens do Vidas  Violetas, engrandecem a condição feminina, dedicamos a série de perfis que serão publicados, um seguido do outro, ao longo dos meses, como homenagem e reconhecimento às suas múltiplas potencialidades e sensibilidades.

 

A artífice

Valéria Duarte Barbosa Coelho, consultora da gráfica Central Park

Se é sob o olhar atento da dona, Vera Lúcia Ranzan Graf, que a gráfica Central Park cresce como uma das melhores no ramo de conveniência no Distrito Federal, cabe destacar o quanto a mão da ex-gerente e agora consultora, Valéria Duarte Barbosa Coelho, imprimiu e continua a imprimir diferença em cada peça saída do parque gráfico nesses 24 anos de prestação de serviços diversos. Ela que começou a trabalhar no local aos 21 anos, primeiro como recepcionista, para depois assumir a gerência e liderar um time de funcionários dedicados não só a garantir qualidade máxima em impressões e acabamentos, como instigados a particularizar o atendimento, distinguindo-se justamente por um modo único de tratar o cliente, onde empatia se reverte em capricho e gera preferência.

Ouvir. Perceber. Sentir. Pensar. Fazer. Refazer. O jogo Vidas Violetas exigiu de Valéria e sua equipe bem mais do que a emissão de uma ordem de serviço. Por ser um produto de conteúdo diferenciado, a partir do qual um tema incontornável como a violência contra a mulher viria à tona, o profissionalismo se aliou ao comprometimento ético, resultando em um envolvimento pessoal que, segundo ela, foi bem além do que usualmente ocorre entre fornecedor e cliente. Assim, foi preciso reinventar procedimentos meramente técnicos, passando a despertar e a mobilizar em toda a equipe expertises próprias do campo do sensível.

Trabalho de formiguinha, coletivo e artesanal a um só tempo, onde artífices foram convidados a trabalhar com o mesmo rigor com que os artistas esculpem suas obras de arte. “Não somos apenas a gráfica que imprimiu o jogo Vidas Violetas. Posso dizer que nos consideramos parceiros mesmo desse e de outros projetos de pesquisa anteriores da professora Raquel Pires. Isso porque, desde o primeiro contato, percebemos a importância daqueles conteúdos para estudantes e profissionais de saúde. Então, não era só decidir a melhor faca de corte ou o melhor papel para tornar a impressão impecável, mas descobrir junto com a autora a melhor forma de apresentação de uma ideia, de um necessário e valioso pensamento crítico sobre temáticas cruciais para a vida social. Então, se aquele produto visava melhorar o mundo, a gente também daria o nosso melhor”, lembra a artífice.

Formada em Administração, não foi à toa que Valéria abraçou o jogo Vidas Violetas, construindo uma “ponte” entre razão e sensibilidade. Segundo ela, a gráfica Central Park sempre estimulou funcionários a expandir seus conhecimentos e diversificar sua formação, promovendo cursos internamente e tornando possível especializações fora do ambiente de trabalho. “Como comecei a trabalhar muito jovem na gráfica, tive que conciliar vida profissional e acadêmica. Mas isso nunca foi um problema, ao contrário, fiz cursos e faculdade trabalhando e era liberada aos sábados para assistir às aulas. Vera sempre valorizou quem busca outros saberes e por isso também vibrou ao poder contribuir com a confecção de jogos didáticos. No portfólio, há ainda os jogos Banfisa e INDICA-SUS, também da professora Raquel, e isso é motivo renovado de orgulho para nós todas que enxergamos nosso trabalho ali por trás de cada carta laminada, de cada dobradura de caixa ou de tabuleiro”, atesta Valéria, uma virginiana que, perfeccionista por natureza, não titubeou em medir milimetricamente ou organizar individualmente cada componente do jogo para o qual também torce e deseja sucesso.

“O Vidas Violetas está lindo do ponto de vista estético, mas não é só por isso que o jogo vai trazer muito orgulho às autoras e também às jogadoras. Eu aprendi muito com ele sobre histórias de mulheres maravilhosas e fortes que, ao longo da História, souberam superar dificuldades e lutar por seus direitos e desejos. Não conhecia a maioria daquelas personagens e saio dessa experiência não só realizada do ponto de vista profissional como mais consciente e comprometida com as bandeiras feministas. É um jogo que quero continuar a jogar, em nome de todas as mulheres”, regozija-se Valéria.

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